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Saúde

Obesidade: um fator de risco para várias doenças

30 dezembro 2020
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A obesidade é um problema de saúde pública por ser um fator de risco para o desenvolvimento e agravamento de doenças crónicas.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a obesidade pode ser definida como a acumulação anormal ou excessiva de gordura corporal que apresenta um elevado risco para a saúde do indivíduo 1.

 

O excesso de peso ou obesidade são definidos consoante os valores de Índice de Massa Corporal (IMC), um índice estatístico utilizado para classificar a população consoante o seu peso atual. Um IMC superior a 25kg/m2 é considerado excesso de peso e IMC superior a 30kg/m2 é considerado obesidade 2.

 

Qual a prevalência da obesidade em Portugal?

 

Os dados do Inquérito Nacional de Saúde referentes ao ano 2019 mostram que 53,6% da população adulta portuguesa apresenta excesso de peso (pré-obesidade ou obesidade) e 16,9% apresenta obesidade 3.

 

Em Portugal, a prevalência mantém uma tendência crescente, embora recentemente se comece a verificar uma estagnação 3. Por outro lado, o excesso de peso e obesidade infantil tem vindo a apresentar consistentemente um decréscimo, consequente também dos esforços conjuntos na adoção de medidas de prevenção e combate à obesidade infantil 4.

 

Os dados mais recentes da OMS revelam que, globalmente, 39% dos adultos com mais de 18 anos apresentam excesso de peso (o que corresponde a mais de 1,9 mil milhões de indivíduos) e que cerca de 13% da população mundial é obesa 1.

 

Comunidade científica pede revisão da definição de obesidade

 

A sua crescente prevalência e associação a doenças crónicas não transmissíveis, promoveu na comunidade científica o debate sobre a necessidade de alterar a definição de obesidade.

 

A World Obesity Federation destaca que, ao determinar que a obesidade é uma doença crónica de origem multifatorial, é possível remover o estigma de que os pacientes são os únicos responsáveis pelo seu excesso de peso, focando a atenção nas estratégias de gestão da doença e mostrando que, se for possível tratar a obesidade com sucesso, a maior parte das patologias associadas serão também eliminadas 5.

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Obesidade é um fator de risco para outras doenças

 

A obesidade constitui um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento e agravamento de doenças crónicas não transmissíveis, como doença cardiovascular, diabetes Mellitus tipo 2 ou cancro 6.

 

Para a doença cardiovascular

 

A doença cardiovascular está fortemente associada ao excesso de peso. Estudos relatam que indivíduos obesos apresentam 5 vezes maior risco de desenvolver hipertensão arterial e estão associados a um aumento do risco de Acidente Vascular Cerebral.

Os eventos cardiovasculares na população obesa podem ainda estar associados ao desenvolvimento de dislipidemia, ou seja, aos valores elevados de colesterol total e colesterol LDL característicos do excesso de gordura corporal 6, 7, 8.

 

Para a diabetes tipo 2

 

A Diabetes Mellitus tipo 2 é outra patologia fortemente associada ao excesso de peso. A evidência refere que 90% dos indivíduos com diabetes tem um IMC superior a 23 kg/m2. Mesmo em obesos metabolicamente saudáveis (ou seja, com valores normais de glicemia, pressão arterial ou triglicéridos), há um aumento em cerca de 4 vezes do risco prospetivo de desenvolver diabetes 9.

 

Para cancro e outras condições clínicas

 

O excesso de peso está ainda associado a um aumento do risco relativo de alguns tipos de cancro, a esteatose não hepática, a osteoartrite e a casos de infertilidade ou impotência sexual 10.

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O impacto da obesidade na COVID-19

 

A evidência científica tem vindo a associar múltiplos fatores de risco quer à gravidade dos sintomas, quer à mortalidade observada em pacientes com COVID-19.

 

Estudos têm demonstrado que a idade e a presença de doenças crónicas associadas ao excesso de peso (como diabetes ou doenças cardiovasculares) podem estar associados ao agravamento dos sintomas da COVID-19 ou ser preditores de mortalidade 11, 12, 13.

 

Porém, a maioria dos estudos associados à COVID-19 não reporta a obesidade como fator de risco devido à falta de informação sobre o peso corporal ou o IMC dos doentes infetados 11.

 

As limitações dos estudos e a possibilidade do excesso de peso poder aumentar a suscetibilidade à infeção

 

É importante destacar que, sendo uma pandemia relativamente recente, a evidência científica existente é limitada e pouco robusta. Num estudo com 383 participantes com COVID-19, o excesso de peso e a obesidade foram associados, respetivamente, a um risco aumentado de 86% e de 142% de pneumonia severa 14.

 

Um outro estudo com 124 doentes com COVID-19 revelou que, independentemente da presença de outras comorbilidades, a necessidade de ventilação mecânica invasiva foi associada a um IMC superior a 35kg/m2 15.

 

Os pacientes obesos, ao apresentar frequentemente disfunção respiratória, estão mais predispostos ao desenvolvimento de pneumonia. Adicionalmente, a presença de hipertensão, dislipidemia ou resistência à insulina caraterística de excesso de peso predispõe os indivíduos a eventos cardiovasculares ou resposta imunitária comprometida.

 

Todos estes fatores poderão aumentar a suscetibilidade do indivíduo à infeção e contribuir para a severidade da COVID-19 16, 17.

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Como prevenir e combater a obesidade?

 

Sendo a obesidade um dos principais problemas de saúde pública, torna-se urgente a adoção de medidas de prevenção e combate a esta patologia.
Apesar de ser uma doença de causa multifatorial, a alimentação inadequada e o sedentarismo surgem como alguns dos seus inquestionáveis e principais determinantes.

 

Assim, a abordagem necessária implica a promoção de um estilo de vida saudável, o aumento da literacia alimentar e nutricional e ainda a implementação de políticas de saúde pública adequadas 3.

 

Literacia alimentar e nutricional pode ser fator-chave

 

A melhoria da qualidade e acessibilidade da informação alimentar e nutricional disponibilizada aos cidadãos é um dos fatores-chave para a prevenção e combate à obesidade.

 

Indivíduos informados e capacitados tendem a fazer escolhas alimentares mais saudáveis. Neste sentido, destacam-se as campanhas desenvolvidas para a promoção de uma alimentação saudável, a utilização de modelos de rotulagem nutricional simplificada (como o semáforo nutricional) e ainda a regulação da publicidade alimentar dirigida a crianças 18, 19.

 

A modificação da oferta e do ambiente alimentar no qual os indivíduos estão integrados é uma medida de combate à obesidade promissora. A implementação de programas que promovam uma alimentação escolar saudável, o desenvolvimento do imposto especial sobre bebidas açucaradas e ainda o plano para a reformulação dos produtos alimentares são algumas das principais iniciativas implementadas em Portugal 3.

 

Por fim, destaca-se ainda o papel essencial dos profissionais de saúde não só no tratamento de patologias crónicas associadas à obesidade, mas também na prevenção das mesmas, através da promoção de uma alimentação saudável e da prática de exercício físico regular 3.

 

Conclusão

 

A associação entre a obesidade e o desenvolvimento ou agravamento de outras patologias crónicas tem vindo a ser destacada e suportada cientificamente ao longo de vários anos.

 

Recentemente, o novo coronavírus veio sublinhar fortemente a importância de combater o excesso de peso e obesidade. Numa época de pandemia, em que o agravamento de sintomas e a mortalidade associada à COVID-19 é uma das principais preocupações na comunidade médica, política e científica, torna-se urgente a adoção de medidas que permitam potenciar um estilo de vida saudável.

 

Assim, com a redução de fatores de risco como a obesidade ou patologias cardiometabólicas será possível, potencialmente, melhorar não só as complicações associadas à infeção pelo novo coronavírus, mas também o estado de saúde das populações.

Fontes:

 

  1. World Health Organization. Obesity and overweight; 2020. Disponível aqui. 

  2. Weir CB, Jan A. BMI Classification Percentile And Cut Off Points. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; July 10, 2020. Disponível aqui. 

  3. Gregório MJ, Sousa SM, Teixeira D. Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável 2020. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2020. Disponível aqui. 

  4. Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Childhood Obesity Surveillance Initiative COSI Portugal – 2019. 2019. Disponível aqui. 

  5. Bray GA, Kim KK, Wilding JPH; World Obesity Federation. Obesity: a chronic relapsing progressive disease process. A position statement of the World Obesity Federation. Obes Rev. 2017 Jul;18(7):715-723. Disponível aqui. 

  6. Kopelman P. Health risks associated with overweight and obesity. Obes Rev. 2007 Mar;8 Suppl 1:13-7. Disponível aqui. 

  7. Ades PA, Savage PD. Obesity in coronary heart disease: An unaddressed behavioral risk factor. Prev Med. 2017 Nov;104:117-119. Disponível aqui. 

  8. Kernan WN, Inzucchi SE, Sawan C, Macko RF, Furie KL. Obesity: a stubbornly obvious target for stroke prevention. Stroke. 2013 Jan;44(1):278-86. Disponível aqui. 

  9. Twig G, Afek A, Derazne E, Tzur D, Cukierman-Yaffe T, Gerstein HC, Tirosh A. Diabetes risk among overweight and obese metabolically healthy young adults. Diabetes Care. 2014 Nov;37(11):2989-95. Disponível aqui. 

  10. Blagojevic M, Jinks C, Jeffery A, Jordan KP. Risk factors for onset of osteoarthritis of the knee in older adults: a systematic review and meta-analysis. Osteoarthritis Cartilage. 2010 Jan;18(1):24-33. Disponível aqui. 

  11. Hussain A, Mahawar K, Xia Z, Yang W, El-Hasani S. Obesity and mortality of COVID-19. Meta-analysis. Obes Res Clin Pract. 2020 Jul-Aug;14(4):295-300. Disponível aqui. 

  12. Sattar N, McInnes IB, McMurray JJV. Obesity Is a Risk Factor for Severe COVID-19 Infection: Multiple Potential Mechanisms. Circulation. 2020 Jul 7;142(1):4-6. Disponível aqui. 

  13. Li X, Xu S, Yu M, et al. Risk factors for severity and mortality in adult COVID-19 inpatients in Wuhan. J Allergy Clin Immunol 2020;146(July (1)):110–8. Disponível aqui. 

  14. Cai Q et al. Obesity and COVID-19 Severity in a Designated Hospital in Shenzhen, China. Diabetes Care. 2020 Jul;43(7):1392-1398. Disponível aqui. 

  15. Simonnet A et al. COVID-19 and Obesity study group. High Prevalence of Obesity in Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus-2 (SARS-CoV-2) Requiring Invasive Mechanical Ventilation. Obesity (Silver Spring). 2020 Jul;28(7):1195-1199. Disponível aqui. 

  16. Stefan N, Birkenfeld AL, Schulze MB, Ludwig DS. Obesity and impaired metabolic health in patients with COVID-19. Nat Rev Endocrinol. 2020 Jul;16(7):341-342. Disponível aqui. 

  17. Fortis A, Garcia-Macedo R, Maldonado-Bernal C, Alarcon-Aguilar F, Cruz M. The role of innate immunity in obesity. Salud Publica Mex 2012;54:171–7. Disponível aqui.

  18. Spronk I, Kullen C, Burdon C, O’Connor H. Relationship between nutrition knowledge and dietary intake. Br J Nutr. 2014 May 28;111(10):1713-26. Disponíve aqui. 

  19. Van der Horst K, Bucher T, Duncanson K, Murawski B, Labbe D. Consumer Understanding, Perception and Interpretation of Serving Size Information on Food Labels: A Scoping Review. Nutrients. 2019 Sep 11;11(9):2189. Disponível aqui. 

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