O que é a epilepsia, principais causas e o que fazer perante uma crise
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A epilepsia pode causar convulsões e perda de consciência. Saiba reconhecer os sintomas, agir numa crise epilética e as opções de tratamento disponíveis.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 50 milhões de pessoas no mundo sofrem de epilepsia, tornando-a uma das doenças neurológicas mais comuns a nível global.
Em Portugal, o número estimado de pessoas com esta condição varia entre os 40 mil a 70 mil, o que significa que 1 em cada 200 pessoas é afetada por crises epiléticas.1 e 2
Se fossem diagnosticados e tratados adequadamente, até 70% dos doentes poderiam viver sem crises convulsivas.
O que é a epilepsia?
A epilepsia é uma doença crónica caracterizada por crises epiléticas recorrentes devido a descargas elétricas excessivas e síncronas dos neurónios. As crises podem provocar alterações motoras, sensoriais, cognitivas ou comportamentais, com ou sem perda de consciência. A recuperação pós-crise (fase pós-ictal) varia de minutos a horas.3 e 4
Causas
As causas da epilepsia podem ser genéticas, estruturais, metabólicas, autoimunes e infeciosas, sendo que cerca de um terço dos ataques epiléticos não têm uma causa conhecida.
Embora os fatores ambientais não causem epilepsia, podem desencadear crises em pessoas que já têm esta doença neurológica.
Existem fatores que frequentemente facilitam a ocorrência de uma crise, tais como:2 e 5
- Stress;
- Álcool;
- Doença;
- Desidratação;
- Falta de sono;
- Saltar refeições;
- Consumo de drogas ilícitas;
- Luzes fortes e intermitentes;
- Alterações hormonais durante o ciclo menstrual;
- Falhas ou suspensão na toma de anticonvulsivantes.
A epilepsia é hereditária?
Alguns tipos de epilepsia são hereditários e podem estar associados a genes específicos. No entanto, as alterações genéticas podem ocorrer numa criança sem serem transmitidas pelos pais.
Para a maioria das pessoas, os genes são apenas parte da causa da doença, uma vez que podem tornar a pessoa mais sensível a condições ambientais que podem desencadear um ataque de epilepsia.5 e 6
Fatores de risco
Há fatores que podem aumentar o risco de epilepsia e convulsão. A doença é mais comum em crianças e idosos, embora a crise epilética possa ocorrer em qualquer idade.
Além disso, existem outros fatores a considerar, nomeadamente:5
- Demência;
- Traumatismo craniano;
- Histórico familiar da doença;
- Acidente vascular cerebral (AVC), assim como outras doenças vasculares;
- Infeções cerebrais, como meningite;
- Febre na infância.
Geralmente, as crianças que têm convulsões devido a febres altas não desenvolvem esta condição, mas o risco aumenta se forem convulsões prolongadas ou focais.
Complicações
Ter uma convulsão em determinados momentos pode ser perigoso para o paciente ou para as pessoas à sua volta. Uma crise epilética pode causar um acidente rodoviário, provocar afogamentos ou perda de memória.
Se o doente com epilepsia cair durante uma convulsão, pode magoar a cabeça ou até fraturar um osso.5
Diagnóstico
O diagnóstico é fundamental para identificar corretamente a origem das convulsões e definir o tratamento mais adequado, reduzindo o risco de crises futuras e complicações associadas.
Ter uma convulsão nem sempre significa que a pessoa tem epilepsia, já que as convulsões podem ter outras causas.
Geralmente, o diagnóstico é realizado se houver mais de uma convulsão sem condições de saúde subjacentes, que podem ser excluídas perante exames de sangue.
Existem diversas técnicas de imagem que podem auxiliar no diagnóstico e acompanhamento deste problema, nomeadamente:1, 3, 4 e 7
- Eletroencefalograma (EEG);
- Estereoeletroencefalografia;
- Ressonância magnética (RM);
- Tomografia computorizada (TC);
- Tomografia por emissão de positrões (PET);
- Tomografia computorizada por emissão de fotão único (SPECT).
Consultar o médico regularmente para a realização de exames de rotina ou mais específicos é essencial para prevenir potenciais problemas a longo prazo.
Sintomas
Geralmente, os sintomas de um ataque de epilepsia são semelhantes de um episódio para outro.
Embora pessoas com epilepsia possam apresentar sintomas diferentes, os mais comuns incluem:5 e 7
- Olhar fixo;
- Rigidez muscular;
- Confusão momentânea;
- Movimentos involuntários dos braços e pernas;
- Sensações e sentimentos incomuns, como dormência, cheiros estranhos, alterações na visão ou medo repentino;
- Comportamento incomum, como inquietação ou andar sem rumo sem se aperceber do que está a fazer;
- Perda involuntária de urina;
- Perda de consciência.
- Normalmente, uma crise epilética dura alguns segundos ou minutos e termina espontaneamente.
Sinais de alerta antes das convulsões
Doentes com um certo tipo de crise epilética, conhecida como crise focal, podem apresentar sinais de alerta (auras) nos momentos que antecedem o início da crise.
Os sinais de alerta podem incluir emoções, como medo, ou manifestarem-se fisicamente com uma sensação no estômago.
As auras também podem manifestar-se através de alterações no paladar ou na visão, como uma luz constante ou intermitente.
Algumas pessoas podem, ainda, ter perda de equilíbrio e alucinações.5
O que fazer em caso de ataque epilético?
Perante uma crise convulsiva generalizada, o passo fundamental é manter a calma e proteger a integridade física da pessoa, colocando um objeto macio sob a sua cabeça sem nunca tentar imobilizá-la nem forçar a abertura da boca.
É essencial cronometrar a duração do episódio e, assim que os movimentos cessarem, colocar o doente em posição lateral de segurança, permanecendo ao seu lado até que a consciência e a respiração regressem à normalidade.
No caso de crises mais ligeiras, que se manifestem apenas através de confusão ou comportamentos invulgares, o papel do acompanhante passa por afastar perigos imediatos e oferecer apoio constante até à recuperação total.
A assistência médica especializada deve ser solicitada através do 112 sempre que a crise ultrapasse os cinco minutos, se houver ferimentos graves ou dificuldade em retomar a respiração.
A chamada de emergência é igualmente obrigatória caso se trate da primeira crise do indivíduo, se ocorrerem episódios repetidos sem recuperação de consciência pelo meio ou se persistirem dúvidas sobre como proceder.
Acima de tudo, deve evitar-se dar de beber ao doente ou tentar puxar a língua, um mito comum sem fundamento científico. Estas medidas garantem que o processo de recuperação da pessoa ocorre de forma natural e segura.8 e 9
Recomendações para pessoas com epilepsia
Indivíduos com esta condição podem adotar medidas estratégicas para se manterem seguros e reduzirem o risco de crises, caso estas não estejam completamente controladas pela medicação. Neste sentido, podem:7
- Anotar num diário ou bloco de notas os fatores que podem desencadear uma crise epilética, como stress, cansaço, menstruação, alimentos ou bebidas;
- Transportar um dispositivo de identificação médica, como uma pulseira que informe de antemão da doença neurológica;
- Explicar à família e aos amigos o que podem fazer em caso de crise;
- Usar um alarme para pedir ajuda se tiver um ataque epilético;
- Tomar banho de chuveiro em vez de banheira;
- Tornar a casa mais segura (colocar tapetes no chão, por exemplo).
A epilepsia tem cura?
Não há cura para esta doença neurológica, mas estão disponíveis várias formas de tratamento.
As crises podem ser controladas e até 70% dos doentes podem ficar livres de ataques epiléticos com o uso de medicamentos anticonvulsivantes. Além da medicação, podem ser recomendados tratamentos como procedimentos cirúrgicos, dispositivos anticonvulsivantes e terapia dietética.
Para doentes com epilepsia refratária, especialmente crianças que não respondem à medicação, as terapias dietéticas, como a dieta cetogénica ou a Atkins modificada, surgem como alternativas eficazes, conseguindo reduzir as crises em cerca de metade dos casos.
Já a intervenção cirúrgica apresenta-se como a solução com maior probabilidade de controlo total da doença, embora esteja reservada a candidatos específicos cuja epilepsia seja de origem focal (parcial) e não generalizada, permitindo assim atuar diretamente na região cerebral onde são gerados os sinais anómalos.1, 4, 6 e 10
Prevenção
Segundo estimativas da OMS, 25% dos casos de epilepsia podem ser potencialmente prevenidos através dos seguintes métodos:1
- Prevenção de traumatismos cranianos;
- Acompanhamento perinatal adequado;
- Redução de fatores de risco cardiovascular, como medidas para prevenir ou controlar a hipertensão arterial, diabetes e obesidade, bem como para evitar o tabagismo e o consumo de álcool;
- Utilização de medicamentos e outros métodos para baixar a temperatura corporal de uma criança febril.
Fontes:
-
World Health Organization (2024). Epilepsy. Disponível aqui.
-
Liga Portugues Contra a Epilepsia. A epilepsia e generalidades. Disponível aqui.
-
NINDS (2025). Epilepsy and Seizures. Disponível aqui.
-
Cleveland Clinic (2022). Epilepsy. Disponível aqui.
-
Mayo Clinic (2025). Epilepsy - Symptoms & causes. Disponível aqui.
-
American Association of Neurological Surgeons (2024). Epilepsy. Disponível aqui.
-
NHS (2025). Epilepsy. Disponível aqui.
-
Epilepsy Society (2024)). After a first seizure. Disponível aqui.
-
Liga Portuguesa Contra a Epilepsia. Sabe o que fazer perante uma crise epilética? Disponível aqui.
-
CDC (2024). Treatment of Epilepsy. Disponível aqui.



